SAÚDE
PESQUISA SOBRE DIARREIAS AGUDAS EM
CARAGUATATUBA
Três pesquisadores, Gabriela Farias Asmus, Doutora em Meio
Ambiente , da Universidade de Campinas; Sônia Regina da Cal Seixas, Doutora em Ciência
Sociais, também da Universidade de Campinas: e, Eduardo Gonzalez, Biólogo da
Vigilância Epidemiológica de Caraguatatuba, fizeram um estudo sobre a incidência
de diarreias agudas em Caraguatatuba.
O estudo avaliou os casos de diarreias
agudas registradas no município entre 2002 e 2012, com apoio da Secretaria Municipal
de Saúde e o Hospital Stella Maris. A pesquisa foi transformada em um artigo
publicado recentemente na Revista Interdisciplinar Saúde & Meio Ambiente.
Foi um trabalho dos mais interessantes. As
diarreias agudas, uma manifestação comum das doenças infecciosas intestinais,
são consideradas um sério problema da saúde pública mundial. Estima-se que elas
atinjam cerca de 1,7 bilhões de pessoas anualmente, sendo responsáveis pela
morte de 700 mil crianças. São consideradas a 2ª principal causa mundial de
mortalidade infantil, embora se reconheça que a África subsaariana e o sul
asiático concentrem a maioria dos casos.
No caso específico do Brasil, a
redução das taxas de internação e mortalidade infantil por diarreia aguda é
reflexo das medidas de saneamento básico implantadas a partir da década de
1970, às melhorias no acesso aos serviços de saúde e à introdução da Terapia de
Reidratação Oral.
No ano 2012, o Brasil registrou
186.624 internações hospitalares por diarreias de origem infecciosa presumível,
com taxas (por 100.00 habitantes) variando bastante entre as regiões: 205,0
(norte); 151,7 (nordeste); 83,9 (centro-oeste); 55,7 (sul) e 43,1
(sudeste)(SIH-SUS, 2014).
A probabilidade de crianças
menores de um ano serem hospitalizadas ou morrerem por doença diarreica aguda é
pelo menos quatro vezes maior nas microrregiões localizadas no norte e nordeste
brasileiro.
Os pesquisadores constaram que
Caraguá possui problemática socioambiental semelhante a muitas outras
localidades brasileiras: déficits em saneamento, enchentes urbanas e falta de
infraestrutura para acomodar a população crescente.
Segundo o estudo, em 2002, a taxa
de incidência de diarreias era 37 casos/1000 habitantes. Dez anos depois, em
2012, a taxa era 48,6. Os pesquisadores constataram que a incidência de
diarreias é elevada nas 6 primeiras semanas epidemiológicas do ano; e, que as
taxas de incidência na população infantil são maiores, embora 46% dos casos
brutos recaiam sobre a população adulta.
Constatou-se que os turistas
chegam a representar 25% dos casos nas quatro primeiras semanas do ano, mas que
eles não são diretamente responsáveis pelo aumento de registros no período. Foi
apurado um aumento de casos no verão, estação que concentra maiores volumes de
chuva, temperaturas elevadas e queda de balneabilidade das praias.
Abaixo um resumo do artigo
dos pesquisadores
A proximidade com a formação da
Serra do Mar e os muitos corpos hídricos que drenam o local determinam espaços
que – quando ocupados – tornam-se suscetíveis a desastres associados a
escorregamentos de terra e inundações. Assim como a
maioria dos municípios brasileiros, Caraguatatuba é uma cidade com diferentes
condições socioambientais. Além de reunir espaços com boa infraestrutura urbana
e acesso a serviços, reúne também áreas de difícil acesso, com severas
deficiências em saneamento ambiental e muitas vezes inadequadas para o
estabelecimento de moradias.
Cerca de 60% dos domicílios não estão ligados
ao sistema municipal de coleta de esgotos, e o sistema de drenagem de águas
pluviais (quando existente) é insuficiente em se considerando os volumes elevados
de precipitação que caracterizam a região: cerca de 3.000 mm em anos habituais,
com picos no verão.
Uma característica importante do
município é a sua condição turística, que chega a triplicar a população local
em época de veraneio. Além desta flutuação sazonal, Caraguatatuba possui taxa
crescente de urbanização, certamente associada aos investimentos recentes
ligados à exploração da camada pre-sal na região.
Somando-se este fato à
problemática de esgotamento sanitário, é compreensível que parte de suas praias
sejam eventualmente classificadas como “impróprias” para banho no verão. Caraguatatuba participa do programa MDDA desde sua implantação
no ano 2000, embora o envio regular de dados tenha sido consolidado a partir de
2002. Diferente da recomendação geral do programa, o município decidiu incluir
todas as suas unidades públicas de saúde como “sentinelas”.
Por atender muitos casos de
diarreia diariamente, o único hospital particular existente na cidade também
foi incluído como sentinela. Assim, com exceção das clínicas e consultórios
particulares, todos os estabelecimentos de saúde do município enviam dados ao
programa MDDA.
Os dados de morbidade de diarreia
são oriundos do Programa Nacional de Monitorização da Doença Diarreica Aguda
(MDDA), coletados em duas bases de informação: (i) no sistema online do Centro
de Vigilância Epidemiológica do Estado de São Paulo (CVE-SP), de onde foram
extraídos os dados anuais para o maior período disponível [2002-2012]; e (ii)
nos condensados semanais (“Impresso II”) preenchidos pela Vigilância
Epidemiológica da secretaria de saúde de Caraguatatuba.
RESULTADOS E
DISCUSSÃO
A visualização de uma série de
dez anos de dados [2002-2012] sugere que num primeiro período [2002-2005] os
registros de diarreia reduziram, ao passo em que no período seguinte
[2005-2012] houve uma tendência de aumento . No ano 2012, a taxa foi de 48
casos de diarreia para cada mil habitantes – cerca de 30% maior do que a
observada em 2002.
Dentro de um período de seis anos
(2005-2010), foram notificados 15.677 casos de diarreias agudas em
Caraguatatuba. Os moradores externos (turistas) que adoeceram no município
correspondem a 10% dos atendimentos totais para este período. A faixa etária
que concentra a maior parte dos casos é a “maior que 15 anos”, em especial,
porque a maior parte da população de Caraguatatuba é adulta.
Observou-se que a faixa etária
proporcionalmente mais atingida é a infantil, principalmente bebês menores de 1
ano e crianças entre 1 e 4 anos de idade. De fato, crianças são mais
vulneráveis à incidência de diarreias , embora isto não amenize o fato de que
46% dos casos brutos registrados no município (período 2005-2010) foram
reportados por adultos maiores de 15 anos.
Observa-se que as sete primeiras
semanas - que correspondem parcialmente aos meses janeiro e fevereiro -
coincidem com o pico dos casos. Este período não somente corresponde à época de
maior recebimento de turistas, como também ao período de intensificação de
calor e chuvas no litoral norte paulista.
Os turistas chegam a representar
25% dos atendimentos nas unidades de saúde do município nas quatro primeiras
semanas do ano. Embora o gráfico demonstre que o montante de turistas não é
diretamente responsável pelo incremento dos registros no verão, se reconhece
que o aumento dos turistas nesta época pode sobrecarregar a infraestrutura de
coleta de esgoto, que cobre apenas 56,4 % da população. Indiretamente, a
balneabilidade das praias fica comprometida.
O aumento das chuvas no período
certamente contribui para o carreamento de esgoto para os corpos hídricos do
município, que ao final das contas, desaguarão no mar. Assim, banhistas ficam
expostos a vírus, protozoários, bactérias e outros agentes causadores de diarreias.
Outro fator possivelmente envolvido na explicação para os padrões observados é
o aumento da temperatura no verão, que abrange as semanas com maior número de
registros. O calor tanto pode acelerar o metabolismo dos microrganismos
causadores da diarreia como significa uma época de maior exposição das pessoas
aos ambientes contaminados.
Os próprios moradores de
Caraguatatuba reconhecem um comportamento mais “à vontade” associado ao verão,
com hábitos que podem favorecer a incidência da diarreia neste período. Por
exemplo, o aumento do consumo de alimentos/bebidas de qualidade sanitária
duvidosa, ou a visitação de praias/corpos d’água potencialmente contaminados.
Um segundo período importante em
relação ao incremento de registros está localizado entre agosto e setembro.
Possivelmente, refletem microrganismos que se multiplicam nas épocas mais secas
do ano, como é o caso do outono na região litorânea de São Paulo. Embora esteja
previsto pelo programa MDDA que uma amostra dos dados seja investigada para
elucidação do agente etiológico, nenhum caso foi encaminhado para análise no
município de Caraguatatuba.
Desta maneira, não é possível
discernir se os episódios estão ligados a bactérias ou vírus, se são fruto de
verminoses ou casos isolados de intoxicação alimentar. Acredita-se que o pico
de casos observado nas primeiras semanas do ano em Caraguatatuba sejam
episódios majoritariamente bacterianos, enquanto que o pico do outono esteja
associado a episódios virais.
Durante os anos 2005-2010, foram registrados
apenas seis casos de diarreia sanguinolenta em Caraguatatuba: quatro deles em
bebês menores de um ano, e dois em crianças na faixa etária 1-5 anos. Não há
registros do agente etiológico envolvido. No ano 2005, o programa MDDA também
identificou um surto de diarreia num Centro de Educação Infantil (CEI).
Igualmente, não foram obtidos os resultados da investigação epidemiológica caso
esta tenha ocorrido. De maneira geral, a maior parte das diarreias agudas
atendidas em Caraguatatuba não se referia a episódios considerados “graves”,
uma vez que o plano de tratamento adotado em 60% dos casos foi o “plano A”.
De acordo com o Programa MDDA, o
plano A é destinado a pacientes atendidos sem sinais de desidratação. Eles são
dispensados com recomendações de cuidados domiciliares e recebem envelopes de
sais hidratantes para preparar o soro caseiro em casa. O plano B é indicado em
casos de diarreia com desidratação. Neste caso, o paciente fica em observação e
realiza a terapia de reidratação oral (TRO) ainda no ambulatório. O plano C é
para pacientes com desidratação severa, que necessitam de reidratação
intravenosa.
Ao longo do período 2005-2010, apenas duas
considerações técnicas foram feitas neste sentido: Na semana epidemiológica 6
do ano 2005, o aumento de casos no município foi atribuído à “alta ingestão de
álcool por parte dos foliões, a maioria turistas”. E na semana epidemiológica
14 do ano 2005, o aumento de casos no município foi atribuído às “viroses,
derivadas das enchentes ocorridas na região”.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Embora não se possa afirmar que
haja uma tendência de aumento das taxas de diarreia desde que se iniciou o
programa MDDA em Caraguatatuba, nota-se uma flutuação tanto na série anual
(2002-2012) como na série semanal (2005-2010) de dados. A flutuação observada
entre as 52 semanas epidemiológicas sugere dois períodos importantes: o aumento
acentuado de casos no verão e um aumento moderado de casos no outono. A parcela
destes casos que está associada ao clima (temperatura, umidade do ar,
pluviosidade/ eventos extremos de precipitação) certamente será influenciada no
caso de mudanças ambientais globais, sugerindo que as taxas podem aumentar
ainda mais nas próximas décadas.
O programa MDDA foi originalmente criado para
monitorar a diarreia no nível local, detectar surtos precocemente e trazer
parâmetros mais adequados para as medidas de controle e prevenção. Apesar dos
dados gerados pelo programa serem apenas uma amostra da situação de diarreia em
um município, eles são interessantes para estudos de morbidade. Em especial,
porque eles captam a população que não é necessariamente internada ou morre por
doenças diarreicas – mas que sofre todo o incômodo, o viés nutricional e
econômico que as diarreias podem representar para a família.
Para adequar-se aos novos
desafios globais, que tem o potencial de agravar a situação das doenças
diarreicas, sugere-se que se torne obrigatório: a) a investigação do agente
etiológico em uma porcentagem dos casos, tornando possível o acompanhamento dos
vírus, bactérias e outros microrganismos associados; b) a sistematização dos
endereços geográficos da população acometida, facilitando a execução de análises
espaciais em áreas potenciais de inundação ou outras áreas de interesse; e c) a
criação de uma faixa etária para a população idosa, considerando sua
vulnerabilidade em saúde de uma maneira geral.