Novela Global destaca
tráfico humano, uma luta iniciada no litoral e Brasil, pela jornalista Priscila Siqueira, de São Sebastião.
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| Priscila Siqueira consegue incluir combate ao tráfico de mulheres em novela global. |
Encontrei no sábado com minha amiga, a jornalista Raquel Salgado, que
vive hoje em um belo recanto mineiro, rodeada de gente boa e de muito verde.
Conversamos muito e com muito orgulho, lembramos de outra amiga, a jornalista Priscila Siqueira. A conversa foi
a seguinte: Priscila luta desde 1996
contra o tráfico de mulheres. A gente, eu e a Raquel, recordamos que a
luta de Priscila teve início em São Sebastião e aos poucos foi crescendo. Priscila começou ajudando e orientando as mulheres da zona de São Sebastião. Depois, Priscila
percorreu o mundo defendendo sua causa. Hoje, sua luta é roteiro da principal
novela da TV Globo, a "Salve Jorge". Através da novela, acreditamos que boa parte
do Brasil vai ver que o assunto é de tremenda importância e muita gente vai aderir
a esta luta: combater o tráfico humano para exploração sexual, considerada a
terceira maior fonte de renda ilegal do mundo eo Brasil é o maior exportador
das Américas. Priscila é uma vencedora.
Abaixo uma entrevista concedida por Priscila a sua colega jornalista Patricia
Mourão, da Revista Cláudia, em 2010, para que você, possa saber um pouco mais
da luta dela contra o tráfico humano.
"Quem suporta conviver com o fato de uma
criança, mantida prisioneira em um bordel, ter o intestino perfurado durante
uma relação sexual?”, pergunta com indignação a jornalista Priscila Siqueira,
69 anos. Em sua casa, em São Sebastião, no litoral paulista, ela conta que,
desde 1996, passa boa parte do seu tempo em viagens pelo país e pelo exterior.
Oobjetivo: denunciar o tráfico humano para exploração sexual e exigir medidas
oficiais para acabar com ele. “ Muita gente ainda duvida de que esse comércio
exista ou fica indiferente, talvez acreditando que oproblema é grande demais
para ser enfrentado”, diz.
Mas não dá para fechar os olhos a um negócio
que, depois do contrabando de armas e drogas, é a maior fonte de renda ilegal
do mundo e também a que mais cresce. De acordo com a Organização Internacional
do Trabalho (OIT), o lucro mundial com esse tráfico chega a 31,6 bilhões de
dólares ao ano. “O Brasil é o maior exportador de crianças e mulheres para
prostituição das Américas e serve como país de trânsito para aliciadas nas
nações latino-americanas a caminho da Europa, Ásia e dos Estados Unidos”,
afirma.
Seu primeiro contato com o tema deu-se na
Suécia, no 1º Congresso Mundial contra a Exploração Comercial e Sexual de
Crianças e Adolescentes, realizado pelo Unicef, órgão das Nações Unidas para a
infância. Voltou chocada. “O cálculo era de 1 milhão de crianças traficadas no
mundo. Isso sem contar jovens e adultos”, lembra. Começou então a divulgar o
assunto na mídia brasileira com a equipe da ONG Serviço à Mulher Marginalizada
(SMM), da qual é uma das articuladoras. “Quando falávamos em tráfico de
crianças e mulheres no país, nos chamavam de loucas, escreviam para as redações
dizendo que isso não existia”, recorda.
O ceticismo não desanimou essa ativista
paranaense, mãe de cinco filhos, com uma experiência de 50 anos de militância.
Ainda na faculdade, em Curitiba, integrou a Juventude Universitária Católica,
que teve participação importante nos movimentos sociais brasileiros das décadas
de 1950 e 1960. Depois de casada e formada, morando no Rio de Janeiro, fazia um
trabalho preventivo de saúde visitando periferias e zonas de prostituição. Em
1963, mudou com o marido para São Sebastião, onde continuou o trabalho de
conscientização. Nas décadas de 1970 e 1980, dedicouse a denunciar a
especulação imobiliária no litoral e a expulsão de caiçaras e indígenas das
suas terras, publicando o livro GENOCÍDIO
DOS CAIÇARAS (ED.
MASSAO OHNO, esgotado) e, em 1993, foi trabalhar no SMM. Sua luta na denúncia
do tráfico de mulheres levou-a a escrever também o estudo Oferta, Demanda,
Impunidade – Tráfico de Mulheres.
CLAUDIA
Quem são as principais vítimas do tráfico para exploração sexual?
PRISCILA SIQUEIRA Existe
um tráfico interno poderoso, que atinge principalmente adolescentes. A maioria
é aliciada no interior e levada para as cidades mais ricas ou para locais com
alta concentração de mão-de-obra masculina. Para o exterior, seguem as maiores
de 18 anos, com baixa escolaridade, muitas delas afro-descendentes e mães
solteiras. A Pesquisa Nacional sobre Tráfico de Mulheres, Crianças e
Adolescentes (Pestraf), realizada em 2002 pelo Centro de Referência, Estudos e
Ações sobre Crianças e Adolescentes (Cecria), com participação de várias ONGs,
apontou 110 rotas de tráfico interno (78 interestaduais e 32 intermunicipais) e
131 de tráfico internacional.
CLAUDIA Como ocorre o aliciamento?
PRISCILA SIQUEIRA Elas
recebem, na cidade onde vivem, uma roupa bonita, documentos e, se estão indo
para o exterior, uma grana para passar pela alfândega. Quando chegam ao país de
destino, alguém já as espera no aeroporto e tira delas o passaporte e o
dinheiro, fazendo com que comecem a se prostituir. Nordeste e Centro-Oeste são
as principais regiões de origem.
CLAUDIA Ao sair, elas sabem que serão prostitutas?
PRISCILA SIQUEIRA A
maioria é enganada com a promessa de trabalhar como dançarina, recepcionista de
boate, babá ou cuidadora de idosos. Outras sabem que serão prostitutas. O que
todas desconhecem é que vão viver em situação de escravidão. É diferente das
mulheres que, por conta própria, juntam dinheiro, compram sua passagem e vão se
prostituir num país rico. Se não houve aliciamento, se a mulher é livre para
tomar suas decisões, se é maior de idade, a opção é dela. Nossa luta não é
moral, mas por direitos humanos.
CLAUDIA Há servidão por dívida, como no trabalho escravo
rural?
PRISCILA SIQUEIRA Sim. As
mulheres aliciadas deixam o país com uma dívida de passagem, roupa e
documentação. Uma pesquisa da Unanima (ONG de combate ao tráfico, formada por
congregações católicas femininas e sediada em Nova York) calcula que a dívida
da mulher que sai do Brasil para Madri ou Lisboa equivale a 4,5 mil relações
sexuais. Como nem em um ano inteiro é possível para uma mulher manter essa
quantidade de relações, cria-se uma dependência crescente. Caso diga que quer
ir embora, passará a sofrer ameaças. Ela chega nova, bonita e, à medida que
envelhece, é revendida como um objeto. Um cafetão canadense declarou para a MACLEAN’S (revista semanal do Canadá) que
preferia vender mulheres a drogas e armas porque drogas e armas só se vendem
uma vez, enquanto a mulher pode ser revendida até morrer de aids, ficar louca
ou se matar.