Saudade não tem idade II
Chico e Tainha: os personagens do carnaval de Caraguá
Vai
chegando o carnaval e a gente vai conversando com o pessoal mais antigo e
relembrando como era legal o carnaval de antigamente. A gente lembra com
carinho do carnaval no Clube Náutico, do Silvio Fernandes; dos bailes no Clube
XV; do carnaval agitado do Recanto Ana; do “Banho da Dorotéia”, com a criançada
fantasiada de papel crepon e entrando nas águas do mar, na praia entro, depois de
caminhar pelas ruas centrais; do desfile da “Concha Acústica” pelas ruas
centrais, no interior da concha, a bela caiçara, apelidada de “Tainha”, apenas
de maiô, “parava” a multidão de turistas. A escola de samba Tubarão, comandada
pelo mestre Dionízio, agitando as ruas do centro; o bloco Notei no Teu
Semblante, organizado pelo Aldinho Navarro; do bloco Segura Meu Louro; e até
mesmo do Bloco das Piranhas, aquele de antigamente...Bons tempos...
Existem,
no entanto, duas figuras que permanecem até hoje, no imaginário dos moradores e
veranistas mais antigos: Conceição Aparecida do Nascimento e Francisco Vilegas. Poucos sabem quem foram
eles pelo nome verdadeiro. Muito poucos sabem a importância deles no animado
carnaval de antigamente. Conceição Aparecida do Nascimento, era a “Tainha”,
aquela morena maravilhosa que desfilava no interior da concha, que puxada por
um carro alegórico, abrilhantava os desfiles carnavalescos na
década de 60, em Caraguá. O desfile de carros alegórico, na época a principal
atração do carnaval de nossa cidade, percorria a região central, a praça
Cândido Mota e a rua Altino Arantes. O carro que transportava a “Concha” era o
mais aguardado pelos moradores, veranistas e os turistas que freqüentavam a
cidade. A “Concha” era uma reprodução daquela concha da Shell, que abria e
fechava (uma pessoa que seguia a pé, puxava a corda que abria e fechava a
concha, nos locais de maior concentração de pessoas). No interior dela, ficava
Conceição, trajando um maiô, de "duas peças". Ela era a grande
atração do carnaval. Conceição, a “Tainha”, uma morena, de 22 anos, muito
bonita, se transformava no "destaque" do nosso carnaval.
![]() |
| Tainha: a musa do carnaval de Caraguá. |
Conceição morou em
Caraguá no bairro Estrela D´Dalva, próximo onde fica hoje a delegacia de
polícia. Filha do seu Lino e dona Bertulina, caiçaras de Ubatuba, que se
mudaram para Caraguá, Conceição estou no Grupo Escolar de Caraguatatuba(hoje,
Museu Adaly Coelho Passos) e no Colégio Thomaz Ribeiro de Lima. Adolescente,
frequentava o Clube XV de Novembro e o Clube das Américas, que ficava no bairro
do Ipiranga (na época, conhecido como Risca Faca). Conceição trabalhou na
Magazine Flórida, loja que pertenceu ao meu pai, Jorge Burihan e no Auto Posto
Atlantic, de propriedade do Ditinho Lelis.
![]() |
| Tainha na passarela, década de 60. |
Conceição
participava de desfile de modas e era uma das moças mais lindas da cidade. Ela
lembra que o convite para desfilar na concha partiu do então prefeito, Geraldo
Nogueira da Silva, o Boneca. Conceição desfilou na concha nos carnavais de 1967
e 1968, quando tinha 22 anos de idade. Em 1969 casou-se com o italiano Antonio
Cataldo e foi morar na capital paulista. Lá teve dois filhos: Karina e Giuseph.
Em 1975 mudou-se para São José dos Campos e montou a Doceria Antoniella, que
tornou-se uma das mais famosas do Vale do Paraíba. A Antoniella ficava ali na
Praça da Preguiça, na região central de São José. As pessoas que a encontravam
a reconheciam do carnaval de Caraguá. Em 1993 vendeu a doceria e foi trabalhar
como corretora de imóveis. Depois de 15 anos na área decidiu parar de
trabalhar. Conceição lembra com muito carinho do carnaval de antigamente: “Era
muito legal, muito família...Desfilar na concha era ótimo...Depois do desfile a
gente ia para o clube XV pular carnaval...Foi um período muito bom...”. Ela
freqüenta a cidade uma vez ao ano, sempre para rever os parentes. Ela deve
aparecer por aqui no carnaval...
Chico Tanque
![]() |
| Chico Tanque: a partir dele surgiria o Bloco das Piranhas. |
Aí,
vem a lembrança do Francisco Vilegas, quase ninguém lhe conhecia pelo nome
verdadeiro...este era o nome de Chico Tanque, uma das nossas mais tradicionais
figuras carnavalescas. Chico que morreu em 2010 foi um dos maiores incentivadores
do carnaval de rua de Caraguá. Ele e o inseparável amigo Marron se fantasiavam
de mulher e ficavam na rua Santa Cruz, ponto de encontro dos moradores e
turistas, na época, “brincando com todo mundo”. Dessa iniciativa dos dois viria
surgir em 1976 o “Bloco das Piranhas”, hoje, um dos grandes atrativos do
carnaval de rua de Caraguá. A dupla era realmente infernal. Dois amigos que só
se separaram quando a morte chegou. Primeiro, foi o Marron e, depois, o Chico
Tanque. Chico era filho de dona Eleonor, que foi uma das maiores responsáveis
pela Escola de Samba Tubarão, que animou nossos carnavais de rua nas décadas de
70 e 80, comandada pelo inesquecível Díonizio, também, já falecido. Chico era
são paulino roxo e adorava futebol e carnaval. Não perdia jogos do E.C.XV de
Novembro, principalmente, do time de veteranos, onde jogava e tinha inúmeros
amigos, entre eles, empresários, comerciantes, médicos e autoridades públicas.
Era querido por todos. Trabalhava como antenista. Problemas na imagem da TV era
o Chico Tanque quem resolvia. Sujeito de coração bom, tornou-se uma figura
folclórica em Caraguá.
São inúmeras as estórias envolvendo Chico Tanque. Chico,
entendo eu, pode ser comparado ao personagem Chicó, criado pelo escritor Ariano
Suassuna, na peça teatral Auto da Compadecida. Relembrar suas façanhas daria um
bom livro. Fez de tudo na vida, mais nunca se envolveu com a
criminalidade. Lembro de algumas de suas estórias: uma vez, Chico estava num
bar na rua Santa Cruz, com o Marron e, tinha nas mãos, um embrulho com uma
pequena porção de maconha. Conversava com um funcionário do fórum, quando
de repente, chegou a polícia militar para dar uma batida. Chico não teve
dúvidas, pediu para o funcionário do fórum segurar o embrulho. Como a cidade
era pequena e todo mundo se conhecia, a PM deu geral em todo mundo, menos no
funcionário do fórum. Quando a PM foi embora, Chico pegou o embrulho de volta.
O funcionário do fórum perguntou do que se tratava e Chico mostrou a erva. O
funcionário do fórum quase desmaiou. Esse era o Chico Tanque!!!
Outra estória
boa: uma vez, Chico foi chamado para consertar a antena de um morador, no
prédio, que fica em frente a praça Cândido Mota. Ele e o Marron, subiram no
telhado, fizeram uma gambiarra: desligaram o fio da antena de um vizinho, que
era veranista, para ligar na.tv do cliente, morador da cidade. O cliente ficou
supersatisfeito com o serviço: a imagem ficou perfeita. Alguns dias depois, o
veranista, desconhecendo o que tinha acontecido com sua antena, procurou o
vizinho, que indicou o Chico para resolver o problema da imagem da TV
dele. A dupla desligou a antena de um outro veranista, que não se
encontrava na cidade naquele dia e, “consertou” a TV do cliente
veranista...Chico era assim, um sujeito imprevisível...É por isso que a gente
nesta época do ano (próximo do carnaval) lembra
dele com muito carinho...A Fundação Cultural de Caraguá fez um boneco “Chico
Tanque” para homenagear o Chico... O boneco participa dos bailes do carnaval de
antigamente que acontecem na praça Cândido Mota e na Praça da Cultura. Justa
homenagem.










